A foto que eu queria ter feito
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Eduardo Muylaert

richard misrach

Foto: Richard Misrach – Albuquerque, New Mexico, 1983

Por Eduardo Muylaert.

Já fui Atget, já fui Brassaï, já fui Lee Friedlander, na minha pretensiosa fantasia, claro. Esses modelos – já clássicos – da fotografia em branco e preto nunca sairão do meu DNA. Tantas fotos de qualquer dos três que eu queria ter feito…

Mas a foto que eu queria mesmo ter feito, de verdade, é esse trabalho de Richard Misrach, detalhe de uma pintura a óleo da coleção do Museu de Arte da Universidade do Novo México, em Albuquerque.

Misrach nasceu em Los Angeles, Califórnia, em 1949. Foi um dos pioneiros, nos anos 70, da revalorização da cor na fotografia e do uso de ampliações de tamanho comparável às grandes pinturas dos museus.

Seus trabalhos mais conhecidos são sobre a intervenção humana na paisagem. Os Desert Cantos, de exuberante beleza, retratam áreas desertas atingidas por experiências nucleares e outras formas de devastação, com forte conteúdo de denúncia. Já o mais divulgado, On the Beach, traça uma perspectiva aérea do frágil ser humano interagindo com a imensidão do mar

A foto que eu queria ter feito faz parte do livro Pictures of Paintings, de 2003, completamente esgotado, como quase todos os livros de Misrach. É um detalhe da pintura a óleo Alegoria do Amor Virtuoso, de Antiveduto Grammatica, pintor do proto-barroco italiano que viveu de 1571 a 1610. Misrach a fotografou com luz natural, numa câmera 8×10, sem se importar com os reflexos que passam a integrar a foto.

Como observa Craig Owens, “alegoria não é hermenêutica. Ao contrário, ela adiciona outro significado à imagem”. As fotografias de detalhes de obras de arte de Misrach formulam um léxico de valores culturais como raça, gênero, religião e poder.

Rompendo as barreiras entre a prática tradicional da documentação e as recentes estratégias de arte de apropriação, esse trabalho de Richard Misrach levanta importantes questões relativas à própria representação.

Agora em fevereiro, foi lançado mais um livro sobre o tema, Shared Intelligence: American painting and the Photograph, em que Barbara Buhler Lynes e Jonathan Weinberg voltam ao palpitante assunto da relação entre pintura e fotografia na arte norte-americana, objeto de exposição de mesmo nome.

Tudo muito moderno. Alguns ainda relutam em aceitar. Mas não custa lembrar que entre os importantes trabalhos de Fox Talbot já encontramos uma bela interação com a pintura, An Oil Painting. Esse trabalho representava uma novidade, em 1839 ou 1840.

3 Comentarios

  1. Bela escolha e linda aula, Muylaert.
    Me preencheu a manhã de referências e deixou estudos pra semana inteira.
    obrigado!

  2. juan esteves diz

    Bela escolha Eduardo! Esta sutil, mas reveladora, escolha só poderia ter sido sua. Parabéns!
    Abraços
    Juan Esteves

  3. Muylaert fez algo muito parecido em “Mulheres dos Outros”, acho que descobrimos de onde veio a inspiração. Belos trabalhos tanto o de Misrach, quanto o de Muylaert

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