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Sentidos segredados

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Fotos: Paulo Batalha

Sentidos segredados

Haveria de acudir a um outro ar naquele dia. As mãos brigavam com os olhos, não entendia como poderia ter areia neles. Diziam, já há algumas semanas, que aquele dia seria especial. Que o sol fugiria das nuvens, e que a noite tardaria a afirmar-se. Sua casa era mínima, não pelo espaço em si, mas, muito mais, pelo ar seco-abafado-oprimido que arrefecia a vida ali dentro.

Mesmo assim, resistia a mudar-se dali. Era incapaz de transgredir seus medos para mudar. O hábito de ir à janela impregnava seu olhar. Era um hábito, apenas isso. Olhava para a paisagem seca, árida de asfalto, durante um tempo que se contorcia para enxergar. E como enxergar é abrir ranhuras no que vemos, sem sabermos aonde encontraremos o fim da percepção, olhar a paisagem converteu-se em crença. Sistematicamente, a paisagem foi virando gente. O espaço foi virando segredo. Segredo de gente. Visagem de transeuntes. Imagens do acúmulo de cores, movimentos, corpos, pedaços, coisas, bichos, solitudes.

Mas aquele seria um dia diferente, como haviam dito. Resolveu abrir a porta, e num impulso de aproximar-se mais daquelas histórias que “andavam” por ali, saiu. A paisagem deixou de ser imaginação. Circulou em seu próprio silêncio, enfronhando-se entre pessoas e vestígios, entre janelas (agora vistas de fora) e prédios, entre olhares e encontros. Encarar a realidade fez-lhe, aos poucos, perceber o exercício de transitar pela ficção que há nela. Olhar de perto não faz as coisas serem realistas, tampouco de longe. O que nos faz transcender a realidade é a imagem que construímos através dela.

Naquele dia, houve surpresas, menos pelo que predispunha o tempo, e mais pelo que respirou-se além da janela. Acontecera que a vida da paisagem tornou-se um longo dia diante da fotografia. O que se passara com aquele olhar transformou-se em território de imagens. Sentidos segredados de um lugar.

Georgia Quintas.

* Texto realizado para a publicação “A memória e o concreto” do fotógrafo Paulo Batalha.

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