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Pensamento Crítico em Fotografia

ricardo-mendes

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– Porque nós temos agora mais um exagero, mais uma doença nervosa: a da informação fotográfica, a da reportagem fotográfica, a do diletantismo fotográfico, a da exibição fotográfica – a loucura da fotografia. Já não há propriamente mais fotógrafos profissionais, porque toda cidade é fotógrafa.

O texto lembra alguma situação contemporânea, Instagram, celulares com câmeras e clics invadindo a tudo e a todos? Publicado em agosto de 1908, na Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, pelo jornalista, cronista, escritor João do Rio, faz parte do livro Pensamento Crítico em Fotografia – Antologia Brasil, 1890-1930, organizado pelo pesquisador Ricardo Mendes e que pode ser baixado gratuitamente aqui. O projeto que deu origem ao livro foi contemplado no XII Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2012.

Mais do que surpreender com a informação de que produzir imagens com aparelhos tecnológicos já foi, como agora, uma espécie de epidemia, o que o texto revela é o quanto ainda desconhecemos da trajetória da fotografia no Brasil. E não apenas como consumo ou comportamento mundano, mas como produção cultural relevante. O livro de Mendes é um dos resgates possíveis.

Resultado de uma pesquisa certamente insana, tem seu conteúdo centrado na reprodução ligeiramente comentada de artigos, críticas, notícias sobre fotografia publicados em jornais, revistas, especializadas ou não, nesse período que sucede a introdução da fotografia e precede os primeiros ensaios do modernismo no Brasil, um período ainda permeado pelo vazio historiográfico, com as exceções de praxe onde despontam alguns ensaios importantes.

É um material primário que ele oferece em primeira instância a outros pesquisadores e historiadores. Em um segundo plano é já uma indicação de que o pensamento crítico sobre a fotografia por aqui nunca foi tranquilo, embora no período, como agora, não faltassem louvações e elogios fáceis. Mas essa é uma questão secundária no livro. Ao oferecer um amplo leque de artigos publicados principalmente no Rio e em São Paulo, deixa a sugestão, na verdade, afirmação exposta em sua introdução, de que ainda há muita coisa a se mostrar sobre a trajetória da fotografia no país.

O período escolhido pelo pesquisador é, nas palavras dele o de uma “cultura fotográfica em formação”. Não faltam notícias mundanas, registro de exposições, questões sobre a natureza artística ou não da fotografia, conceitos sobre o retrato, como o exposto pelo atuante fotógrafo Sylvio Bevilacqua: “[…] atualmente não se suporta mais um retrato rígido ou sem expressão, que tenha apenas perfeição fotográfica, é preciso que se ponha, embora com dificuldade, no trabalho, um pouco da alma do modelo ou um pouco de artifício que substitua o que a natureza não deu ao modelo”. (Photogramma, 1928).

No mesmo texto, acrescenta dica que considera importante e, curiosamente, dedicada ao fotografado: “Ao entrar no ateliê do artista o modelo deve preferir uma iluminação alta, como a que nos vem do céu, a luz angélica, como se diz em arte. Só ela é simpática, só ela dá profundidade e brilho ao olhar; a luz horizontal é antipática, a luz de baixo é diabólica.”

O material é extenso e uma das tendências da época, o pictorialismo, é um assunto recorrente e não faltam discussões e artigos com títulos como Fotografia e Pintura, É a Fotografia Uma das Belas Artes?, Os Meios de Expressão na Fotografia Picturial, onde conceitos, formas de intervenção nas imagens, qualidade, são discutidos extensamente, estabelecendo uma troca de idéias, informações e valores que, ainda não devidamente estudados, não fornecem uma visão mais transparente e nítida desse momento. Mendes inclusive sugere que “seria mais correto evitar uma análise estrita do panorama local pela ótica da historiografia internacional sobre o pictorialismo, prática que até aqui tem apenas ajustado o figurino conceitual ao pouco que se sabe sobre a produção e recepção da produção brasileira.”

O livro registra, ainda, em notícias e artigos, movimentos dos primeiros fotoclubes, as críticas aos amadores (não artistas), cursos, conversas sobre técnicas, um caleidoscópio de assuntos envolvendo a fotografia e que se tornam sugestivos como ítens de pesquisas e trabalhos historiográficos.

Moracy Oliveira.

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