A foto que eu queria ter feito
Deixe um comentário

Daniel Kfouri

sergio-larrain

Foto: Sergio Larrain

Quando eu olho para uma fotografia estou apreciando o que está nela, ou seja, o que está dentro do retângulo, quadrado ou qualquer outro espaço preenchido por uma imagem, não é isso?

Olho para uma imagem e começo a perceber suas informações de luz, de conteúdo e enquadramento. Basicamente é isso e são esses três detalhes os mais importantes, imagino eu. Existem vários outros, mas vamos ficar apenas com estes…

Mas alguns fotógrafos e com certeza o chileno Sergio Larrain conseguiu ir além de fotografar dentro do retângulo. Muitas de suas fotografias transbordam o retângulo. Como se o retângulo não fosse suficiente para apresentar a sua fotografia.

Nesta imagem de 1958/59 na estação London Bridge em Londres está na minha opinião um exemplo disso.

Larrain dizia:

Una buena fotografía nace de un estado de gracia. La gracia se manifiesta libre de convencionalismos, libre como un niño en su primer descubrimiento de la realidad. Es el juego de organizar el rectángulo.

Mas para mim, Larrain não organizava nada, sua fotografia também não congelava, não era o momento decisivo. Não era fechada. Não era terminada. Ele não esperava mudar o mundo fazendo uma fotografia esteticamente perfeita e moralista… Sua fotografia não tinha começo, nem meio e muito menos fim. Apenas apresentava uma fração de um tempo que para ele nunca existiu. E que nos permite continuar olhando para a imagem como se estivesse em movimento saindo e entrando do retângulo.

Olhem essas três pernas em perfeita sincronia saindo do quadro. A manada de ingleses saindo da estação junto com uma cabeça de cavalo que vai para o outro lado sendo dirigida pelo braço do motorista que também esta saindo do quadro. E esse vazio…

Definitivemente, é uma das melhores e mais complexas imagens que já vi. É perfeita! Mas acho que Larrain iria odiar essa palavra…

Larrain era livre, vagabundo e mestre.

Como no hay tiempo,

siempre es el momento

de corrigir y empezar…”

Queremos un mundo ideal,

y no miramos el que hay

 

Lo que tienes delante de los ojos,

es lo único que existe.

lo que pasó,

nos ha traído a este punto,

es final es el comienzo

 

Uno se puede engañar a sí mesmo,

y a los demás;

pero no a la realidad

Daniel Kfouri.

Deixe um comentário