Luiz Santos

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O post de hoje da seção Foto guardada é com Luiz Santos, fotógrafo lá do Recife. Luiz manda um recado: “Esqueci de dizer que a reflexão contida no meu escrito, bem como as imagens,  surgiram das ações realizadas no meu projeto SERTÃO DO CÉU LUMINOSO, em andamento”.

santa luzia e o liquidificadorFotos: Luiz Santos – Santa Luzia e o liquidificador.

Terceiro por doisTerceiro por dois.

forjado a fogoForjado a fogo.

 Eu quis ver o céu e as estrelas.

Ao menos pensar sobre como se vê o céu,

por nós ocidentais da cidade e por pessoas de comunidades tradicionais moradoras do interior.

Foi demais.

Um quase ex-fotógrafo como eu, reticente diante do botão disparador,

sem encontrar mais tanta motivação para produzir imagem still,

de repente saio numa viagem

em busca de entender o valor que se dá às leituras do céu.

São tantas as reflexões diante de uma questão tão dada a subjetividades

(belo campo para a fotografia),

e eu estático, cheio de divagações, com ânimo somente para contatos, conversas, trocas de ideias, convivências de tempo sem pressa,

como da vez em que os Pankará de Itacuruba nos ofereceram um toré.

Antes de lá chegar, entretanto, no fundo de um bar de beira de estrada,

vi Santa Luzia, aquela que dizem ser protetora dos olhos –

justo o que sempre me pareceu doente em mim, além da mente –,

Santa Luzia, prefaciada por um aparelho liquidificador.

Parecia premonição.

Eu numa crise danada com a produção fotográfica

e a imagem a sugerir que as coisas precisavam ser misturadas, trituradas. Eureka! Não existe mais fotografia. Tudo foi jogado naquele copo

junto com os olhos da santa.

Ao entrar na aldeia dos Pankará, em Itacuruba, Pernambuco,

iniciamos a conversa sobre o olhar o céu.

Conheci um casal e havia um terceiro ser na barriga, uma estrela,

e os dois comentaram sobre o devir e o porvir,

numa clássica pose de olhar o infinito ao alcance dos olhos.

Depois, findo o toré, convidei as lideranças da aldeia

para uma conversa à beira da fogueira, ainda o assunto de como veem o céu (tudo gravado em áudio).

Foi o mesmo fogo que forjou o retrato que tirei do grupo; um único clic,

e eu não podia errar.

Três fotografias, terno de amor terno, de olhar terno, de sacrifício eterno.

Longas exposições.

Lembro agora como se apagado não tivesse sido, do fogo da fogueira,

da luz primordial e encandeante do céu claro de tão escuro,

de Santa Luzia e do liquidificador.

Era ainda 2012 e eu nunca tinha mostrado essas fotografias.

Identifico ali o início de minha migração preferencial

para a imagem em movimento.

Foi por ali que decifrei o segredo.

E parei de sofrer por conta da inércia e da indisposição para a imagem única,

curiosamente exercitando narrativas puxadas por ela.

Mas aí não era mais problema de ser, mas de fui um dia.

Instalou-se a calmaria.

Luiz Santos é retratista, educador e videofazedor.

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