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Quando fotografamos para sonhar

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Fotos: Luis González Palma – Série Ara Solis (Aquí estoy frente a mi), 2010. Inkjetprint sobre papel de acuarela. 60×50 cm

Um olhar para além da realidade: quando fotografamos para sonhar

Por Georgia Quintas

Com os olhos bem abertos podemos muito bem sonhar. Nem sempre precisamos fechar os olhos para vivenciarmos histórias, sensações, idílios, fugas, desejos, dores, solidão, alegrias, desencontros, vazios, exuberâncias, esperanças… O mundo através da fotografia nos permite transcender as supostas certezas da realidade; é quando a criação artística perturba os paradigmas e faz da ideia o começo da invenção de novos mundos. O trabalho do fotógrafo Luis González Palma desfila a poética do improvável (e por que não dizer do invisível?) em cenas construídas com esmero, delicadeza e habilidade desconcertantes. Características estas próprias dos artistas comprometidos com sua arte, que bem sabem que só se compartilha um discurso de fabulação quando arrebata-se o olhar de quem está do outro lado. De quando simplesmente a fotografia encontra seu sentido e lugar de existência: no Outro.

A obra de González Palma representa a potencialidade inerente à imagem fotográfica de gerar reflexões, debates, belezas e pensamentos. O vigor e eloquência de seus personagens (sejam pessoas, coisas o lugares) envolvem nosso olhar em certa dimensão simbólica difícil de esquecer. A cada ensaio percebemos que passamos a canalizar atmosferas tão profundas e tocantes que poderiam ser nossas. Imagens íntimas que habitam nossa memória. Como diria o escritor Jorge Luis Borges, o mundo é simplesmente nossa imaginação. Buscamos por meio da memória e do tempo a compreensão das narrativas que nos cercam e que muitas vezes temos a impressão que perdemos seu significado em algum recanto do passado.

Nesse sentido, González Palma passa a colecionar viagens imaginárias repletas de alegorias e situações oníricas distantes de afirmações contundentes. Ora divagações, ora adivinhações… Porém, nunca o documento, o factível ou algo que nos seja ofertado com legendas explicativas. Ao contrário, suas imagens e os títulos (como os que apreciamos nas séries Jerarquías de Intimidad de autoria da artista e escritora Graciela de Oliveira) expressam vestígios, pistas, fraturas de memórias, do inconsciente, do que está isolado e do qual precisa-se aproximar para enxergar melhor seu sentido.

As questões de representação inerentes ao trabalho de González Palma ganham ênfase na maneira como cria soluções estéticas e técnicas em suas fotografias. A póetica desenvolvida nos ensaios  Escenas (2011) e Tu mirada me distorciona sin saberlo (2009) segue o seu estilo de conjugar narrativas alegóricas ao gesto do artesão que se debruça sobre sua matéria até ela significar a intuição e intenção do seu processo criativo. Frequentemente, apreendemos em seus trabalhos algumas estratégias criativas de cruzamento entre o campo perceptivo-sensível da ideia ao objeto fotográfico per si. São camadas físicas no suporte fotográfico que provocam atmosferas na memória de quem contempla tais trabalhos.

A referência do tempo no tom sépia nas fotografias não é um índice físico. Ao contrário, é uma emanação. É o fragmento de vários tempos, de algo que desencadeia imagens particulares e que alimentam os sentidos do ser humano. Em Escenas (2009), a narrativa se desdobra e flutua nas superfícies delicadas do papel fotográfico pintado a mão, da película ortocromática, na lâmina de ouro e nas colagens em papel. E segue, com o recurso de utilizar distintos negativos para, segundo as próprias palavras de Luis González Palma, “crear las imágenes, fraccionar el mundo de la mayor forma”. Assim, a distensão de histórias imaginárias se avolumam pela vitalidade do agrupamento de várias cenas (oriundas de distintas capturas e períodos).

Donde parece darse lo real. 120×100 cm. Película orthográfica + láminas de oro. Serie Jerarquías de Intimidad, el duelo. 2005

Por sua vez, o ensaio Tu mirada me distorsiona sin saberlo (2009) deflagra contra o princípio tradicional do olhar que nos fala fixamente por meio de retratos. A certeza do olhar como enunciado nessas imagens se transforma e se esconde numa situação velada. Imagens-objetos que vivem em espaços frágeis de um papel que guarda em si a latência de significados. Retratos que revelam-se no campo do simulacro de ícones, de onde pensamos enxergar, mas na verdade só vemos o começo do sentido desses semblantes.

A expressiva e consistente trajetória de Luis González Palma estabelece para a fotografia latino-americana questões fundamentais sobre identidade, pertencimento, relações humanas e a inquietação por descobertas com relação ao que a realidade oculta. A matéria primordial de seu  fluxo criativo  é o território mágico e misterioso da subjetividade. Nele, seus ensaios se condesam em rara beleza estética aliada à força de elementos ficcionais muito próximos da fábula. Cada fotografia se coloca como um relicário delicado, planejado em seus ínfimos detalhes – desde a execução da construção da imagem, na utilização de técnicas fotográficas experimentais até suas pós-produções artesanais. A finalidade da imagem, para González Palma, não reside nela em si, mas sobretudo na ação pela qual a faz surgir e nos desdobramentos de pensamentos que dela surgem.

Poderíamos comparar o fenômeno de encantamento pelas imagens desejadas, pensadas e sentidas por Luis González Palma ao sopro quente em pleno verão, ao sal do mar que cola em nossa pele. É certo que tais situações só encontram sentido quando as buscamos na memória ou quando entendemos que a fotografia é um inventário de nós mesmos, o reflexo do poder do que imaginamos sempre. De modo que seria natural perguntar ao autor de tantas alquimias se sua criação respira o mundo pela  superfície da fotografia com o vigor dos sonhadores. Jorge Luis Borges talvez o ajudasse nessa resposta dizendo: “A única coisa que existe é o que sentimos. Só existem nossas percepções, nossas emoções.” Na liberdade de um sonho, também poderia interromper esse diálogo, e dizer que sim, que a extensão simbólica da fotografia de Luis González Palma vai além das imagens, pois ecoam sem freios pela percepção de sentimentos intangíveis.

* Texto de apresentação das exposições de Luis González Palma no Paseo de las Artes del Palacio Duhau (20/10 ~ 02/11 de 2011) e na Buenos Aires Photo no Palais de Glace (26 a 30/10 de 2012).

Abaixo, um extrato do texto em espanhol.

Mientras esperaba pensaba en el sueño. 89×87 cm. Película orthográfica + láminas de oro. Serie Jerarquías de Intimidad, el encuentro. 2004

Una mirada más allá de la realidad: cuando fotografiamos para soñar

Por Georgia Quintas

Con los ojos bien abiertos podemos muy bien soñar. No siempre precisamos cerrar los ojos para vivir historias, sensaciones, idilios, fugas, deseos, dolores, soledad, alegrías, desencuentros, vacíos, exuberancias, esperanzas… El mundo a través de la fotografía nos permite trascender las presuntas certidumbres de la realidad; es cuando la creación artística perturba los paradigmas y hace de la idea el comienzo de la invención de nuevos mundos. El trabajo del fotógrafo Luis González Palma desfila la poética de lo improbable (y por qué no decir de lo invisible?) en escenas construidas con esmero, delicadeza y habilidad desconcertantes. Rasgos éstos, propios de los artistas comprometidos con su arte, que bien saben que solamente se comparte un discurso de fabulación cuando se arrebata la mirada de quien está del otro lado. De cuando simplemente la fotografía encuentra su sentido y lugar de existencia: en el Otro.

La expresiva y consistente trayectoria de Luis González Palma establece para la fotografía latinoamericana cuestiones fundamentales acerca de identidad, pertenencia, relaciones humanas y la inquietud por descubrimientos en relación a lo que la realidad oculta. La materia primordial de su flujo creativo es el territorio mágico y misterioso de la subjetividad. En él, sus ensayos se condensan en rara belleza estética aliada a la fuerza de elementos ficcionales muy próximos a la fábula. Cada fotografía se presenta como un relicario delicado, planeado en sus ínfimos detalles – desde la ejecución de la construcción de la imagen, la utilización de técnicas fotográficas experimentales, hasta su pos-producción artesanal. La finalidad de la imagen, para González Palma, no reside en la imagen misma, sino en la acción por la cual la hace surgir y en los despliegues de pensamientos que de ella nacen.

Podríamos comparar el fenómeno de encantamiento por las imágenes deseadas, pensadas y sentidas por Luis González Palma al soplo caliente en pleno verano, a la sal del mar que se adhiere a nuestra piel. Es cierto que tales situaciones solo encuentran sentido cuando las buscamos en la memoria o cuando entendemos que la fotografía es un inventario de nosotros mismos, el reflejo del poder de lo que imaginamos siempre. Así que sería natural preguntar al autor de tantas alquimias si su creación respira el mundo por la superficie de la fotografía con el vigor de los soñadores. Tal vez Jorge Luis Borges le ayudase a contestar, diciendo: “Lo único que existe es lo que sentimos nosotros. Sólo existen nuestras percepciones, nuestras emociones.” En la libertad de un sueño, también podría interrumpir ese diálogo, y decir que sí, que la extensión metafórica de la fotografía de Luis González Palma va más allá de las imágenes, pues resuena sin frenos por la percepción de sentimientos intangibles.

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