Em 2015, fiz uma colaboração para o Portal de História de Fundación MAPFRE, da Espanha. O convite veio através do professor Boris Kossoy e deveria ser algo sobre a fotografia documental.
Fiz uma pequena resenha sobre o fotolivro Paisagem Submersa (Cosac & Naify, 2008) e entrevistei os três autores, os fotógrafos João Castilho, Pedro David e Pedro Motta. Na época, 2015, o fotolivro completava sete anos da sua publicação.
Esse material não se encontra mais na internet e, agora, resolvi publicar aqui no Olhavê.
Como todo trabalho relevante, Paisagem Submersa é atemporal. Neste ano, o fotolivro completa dezoito anos.

João Castilho, Pedro David e Pedro Motta
Fotografia Emergida
Por Alexandre Belém
Uma capa escura com baixo relevo tentando desvelar algo. A primeira fotografia é preto e branco, e pequena. A tomada aérea mostra um rio e montanhas. Na página seguinte, um pequeno texto:
Sete municípios do nordeste do Estado de Minas Gerais foram parcialmente inundados para formar o lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, construída no leito do rio Jequitinhonha, entre as cidades de Berilo e Grão Mogol. Comunidades ribeirinhas tiveram suas terras atingidas e mudaram-se para outras regiões. As fotografias que compõem este trabalho foram realizadas entre os anos de 2002 e 2007.
Em seguida, uma fotografia colorida numa perspectiva mais de baixo, do mesmo rio. A luz é de final de tarde. A terceira imagem do livro é toda azul. Um caminho (ou uma trilha) no meio da mata enevoada. Na página seguinte, a dedicatória: Aos atingidos.
Assim começa uma das obras mais brilhantes e importantes da fotografia brasileira, o livro Paisagem Submersa (Cosac Naify, 2008) dos fotógrafos João Castilho[1], Pedro David[2] e Pedro Motta[3].
Após sete anos, Paisagem Submersa ainda reverbera e influencia a fotografia documental brasileira. Olhando pra trás e analisando o recorte histórico, Paisagem Submersa chegou num momento em que a fotografia nacional precisava de um chacoalho e arejamento. Principalmente os trabalhos de cunho mais documental. Com a narrativa não-linear e construções de histórias ficcionais, o livro marca e consolida o “documentário imaginário”, conceito que Chuck Samuels – curador canadense do Mois de La Photo – referiu-se ao projeto do trio mineiro.
O ensaio Paisagem Submersa começa bem antes. João e os dois Pedros começaram a documentação da região do rio Jequitinhonha (Minas Gerais, Brasil) em 2002. Algumas cidades seriam inundadas pelo lago de uma usina hidrelétrica. Registrar o drama e o deslocamento dessa população seria o principal objetivo. Porém, entre idas e vindas à região, os fotógrafos foram elaborando histórias, enredos e, principalmente, novas imagens.
Duas palavras para qualificar, como se isso fosse possível, o trabalho seriam: experimentação e poesia.
Entre os anos de 2002 e 2008, Paisagem Submersa foi maturando como ensaio e trabalho. Inevitavelmente, os três artistas também se formaram nessa jornada. “As experimentações que desde cedo nos propusemos a realizar, de formatos e modos de fotografar, de formas de nos posicionarmos em torno do assunto, de nos relacionarmos com as pessoas, e com o trabalho que vinha sendo criado a cada viagem. Se somaram às reflexões que fazíamos ao editarmos o material e a buscar maneiras de viabilizar e dar corpo ao trabalho, foram partes de uma vivência muito rica, que considero fundamental para toda a minha trajetória”, ressalta Pedro David em entrevista.
Já em 2003, o trabalho foi exposto como instalação no prestigiado salão Arte Pará (Belém) e na cidade mineira de Diamantina. Entre 2005 e 2008, foi mostrado no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Liège (Bélgica), Basel (Suíça) e Porto Alegre; foi selecionado no Prêmio Porto Seguro e exposto no Noorderlicht Photofestival em Groningen, Holanda.
O livro foi lançado em 2008, como a consolidação de um trabalho maduro e consistente. Num primeiro momento, Paisagem Submersa foi muito confundido como sendo um novo coletivo fotográfico que surgia no Brasil. Amigos de universidade e de eventos fotográficos em Belo Horizonte, Castilho, Motta e David realizaram um trabalho coletivo mas com forte presença autoral de cada um dos fotógrafos. “Éramos, como ainda somos, experimentais. O projeto Paisagem Submersa – cujo livro é um dos produtos mas que envolve também uma série de instalações, um grande número de exposições, várias palestras e um site – apontava naquele momento um conjunto de ideias e procedimentos que era novo para nossa geração: o trabalho feito coletivamente”, enfatiza João Castilho.
Sem capítulos, núcleos ou fotos ordenadas por autor, o livro é uma viagem intensa por uma paisagem e mundos inesperados. A água, a destruição, o desejo, a vida cotidiana. Rastros do passado, desejos de futuro. Em emblemáticos retratos e paisagens inusitadas, o trabalho do trio mineiro insinuou e, porque não, encaminhou um frescor de linguagem e poética.
Não podemos de deixar de lembrar de fagulhas eternamente acesas na fotografia documental que se desprende do real e busca uma narrativa ficcional. Livros como Viagem pelo Fantástico (1971), de Boris Kossoy e Nakta (1996), de Miguel Rio Branco.
Folhear Paisagem Submersa hoje é sentir a potência que esse livro atingiu a fotografia brasileira há sete anos. E, o mais importante, é sentir o quanto ele nos influenciou.
APÓS AS FOTOGRAFIAS, CONFIRA A ENTREVISTA COM OS TRÊS AUTORES
[1] João Castilho (Belo Horizonte, MG, 1978) é Doutor e Mestre em Artes Visuais pela UFMG, Especialista em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela Escola Guignard e Graduado em Comunicação e Artes pela Puc-Minas. Autor dos livros Zoo (2017), Hotel Tropical (2013), Pulsão Escópica (2012), Peso Morto (2010) e Paisagem Submersa (2008). Site: https://bio.site/joaocastilho
[2] Pedro David (Santos Dumont, MG, 1977) é formado em Jornalismo pela Puc-Minas. Cursou pós graduação em artes plásticas e contemporaneidade na Escola Guignard. Autor dos livros Homem Pedra (2020), 360 Square Meters (2015), Fase Catarse (2008), O Jardim (2012), Rota Raiz (2013) e Paisagem Submersa (2008). Site: http://pedrodavid.com/
[3] Pedro Motta (Belo Horizonte, MG, 1977) é bacharel em Desenho pela Escola de Belas Artes, UFMG. Autor dos livros Temprano (2010) e Paisagem Submersa (2008). Site: https://albuquerquecontemporanea.com/artists/59-pedro-motta/








Entrevista com os autores do livro Paisagem Submersa: João Castilho, Pedro David e Pedro Motta
Por Alexandre Belém
Nessa conversa, os três autores mineiros, João Castilho, Pedro David e Pedro Motta analisam a importância do projeto Paisagem Submersa após sete anos da publicação do livro (essa entrevista foi realizada em 2015).
Como foi o processo de produzir um ensaio fotográfico que propunha uma narrativa mais diluída, não-linear?
JOÃO CASTILHO – O didatismo nunca foi algo que nos interessasse. Nosso pensamento era que se estávamos nos metendo numa aventura que se estenderia por vários anos e consumiria muito da nossa energia e do nosso dinheiro teríamos que fazer o melhor, sem concessões. A fotografia é uma linguagem que fala por fragmentos e não se presta verdadeiramente a contação de histórias, ela atua por outros vieses. Vem daí também nossa recusa em produzir qualquer tipo de texto crítico que quisesse explicar ou localizar as coisas.
PEDRO DAVID – O processo do Paisagem Submersa foi muito marcante para mim em todos os sentidos. A convivência com todo o pessoal que encontrei no Vale do Jequitinhonha durante os seis anos de produção foram um marco em minha vida. Uma escola sobre o Brasil, sobre a viagem, sobre minha posição no mundo. E foi também parte essencial de minha formação em fotografia, em arte. As experimentações que desde cedo nos propusemos a realizar, de formatos e modos de fotografar, de formas de nos posicionarmos em torno do assunto, de nos relacionarmos com as pessoas, e com o trabalho que vinha sendo criado a cada viagem, somadas às reflexões que fazíamos ao editarmos o material e a buscar maneiras de viabilizar e dar corpo ao trabalho, foram partes de uma vivência muito rica, que considero fundamental para toda a minha trajetória.
Tudo isto para dizer que não vejo o Paisagem Submersa como um ensaio, mas sim como um projeto. Foram seis anos em produção, em produções, de fotografias, de um discurso, de formas de apresentação, de formação de sentido, até chegarmos à edição final do livro, que é apenas um dos trabalhos que fizemos com esta história.
A não-linearidade aconteceu porque começamos a mostrar o trabalho muito antes dele chegar a uma conclusão, que seria a mudança das pessoas atingidas pelo lago da Usina Hidrelétrica para outras terras, e a inundação de toda a área do lago. Antes que isto acontecesse era impossível mostrar um trabalho linear, e mesmo sabendo que acompanharíamos a história até este ponto, fizemos questão de começar logo a mostrar o trabalho.
Costumo dizer que esta ansiedade é que nos proporcionou uma mudança vital em nosso modus operandi. Para contar uma história que não havia acontecido ainda, começamos a delirar.
Nossos delírios eram fundamentados nos delírios dos próprios habitantes da região, que já estavam fartos de esperar pelo dilúvio. Foi catarse.
Mas depois de experimentar em várias formas de edição e formatos diferentes, como projeções, cópias fotográficas debaixo d’água, site, e outras, finalmente chegamos ao que chamamos conclusão da história, e passamos a editar o livro, e àquele momento pareceu-nos a melhor oportunidade de experimentar uma narrativa linear, ainda que de certa forma, ficcional.
Assim foi feito, a edição do livro mostra a história cronologicamente.
PEDRO MOTTA – No início do projeto, tínhamos a pretensão de tentar documentar toda a área que seria atingida direta e/ou indiretamente pelas águas da usina. Com o passar do tempo descobrimos que cada comunidade sintomatizava todo o processo de desocupação, medos e anseios por um futuro incerto. Descobrimos assim, de uma forma orgânica e espontânea, que não precisaríamos fotografar tudo e todos dessa dolorida e traumática transposição humana. Outro elemento de apoio à esta iniciativa foi o processo de edição. Método profundamente exercitado por nós, desde o começo do trabalho.
Paisagem Submersa mostra algo que está por vir e é, ao mesmo tempo, um ensaio de pausa nas vidas daquelas pessoas. Como foi se colocar, em termos de linguagem, diante dessa suspensão (do estado das coisas)?
JOÃO CASTILHO – A fotografia, em grande medida, está ligada ao instante, ao aqui e agora e ao que podemos ver. Mas no Paisagem Submersa não queríamos trabalhar com essas matrizes. Há certamente um fato grandioso e traumático por trás de tudo: milhares de pessoas teriam que sair de suas casas para dar lugar ao lago de uma hidrelétrica. Mas a vida naquelas comunidades, até a chegada das águas, transcorria mais ou menos normalmente. Portanto, já que não nos interessava fotografar absolutamente nada da obra da barragem, o que tínhamos como material de trabalho era invisível. Tínhamos que fotografar a angustia, a insegurança, a raiva, a espera, a inquietude, o sufocamento, a inconformidade, a desolação. Isso nos levou a forçar a linguagem ao limite, e mais além, para dar conta de tocar essas questões, que são muito internas, e criar uma visualidade eficaz.
PEDRO DAVID – A linguagem que apareceu no projeto foi formada por vários fatores convergentes, a vontade de fazer um trabalho profundo, de fôlego, a necessidade de experimentar a fotografia, e como disse antes, a ansiedade de ter logo um trabalho para ser mostrado. Quando nos deparamos com esta história, logo percebemos a grande oportunidade que estava à nossa frente. Era como se estivessem nos esperando para dar o play, já que você fala em pausa…
Estávamos iniciando já um trabalho sobre o Vale do Jequitinhonha. Viajando por lá, fotografando muito, e procurando histórias. E o processo da usina estava lá. Tudo já em andamento, mas em um momento muito propício para contar uma história com antes, meio e depois. Daria para fazer isto tudo documentalmente, só esperando as coisas acontecerem e registrando. Só que tinha aquela ansiedade, ao cubo. E no meio do processo, morreu Cartier-Bresson…
PEDRO MOTTA – Durante parte do processo do trabalho, acho que na metade dele, víamos que nada acontecia de fato diante de nós. Este êxodo era muito lento. Começamos assim a procurar novos mecanismos de elaboração do enredo do livro. Criávamos imagens prévias e executávamos em campo. Sugeríamos outras imagens às pessoas e essas reverberavam de formas diferentes. Assim foi construído o corpo do livro, elaboração de um universo imaginário criado entre os atingidos e nós (artistas).
O livro completa sete anos. É um deslocamento temporal bem significativo. Qual a avaliação que você faz hoje do livro? Qual a importância dele para a fotografia e as discussões contemporâneas para a linguagem fotográfica que o livro aportou?
JOÃO CASTILHO – Éramos, como ainda somos, experimentais. O projeto Paisagem Submersa – cujo livro é um dos produtos mas que envolve também uma série de instalações, um grande número de exposições, várias palestras e um site – apontava naquele momento um conjunto de ideias e procedimentos que era novo para nossa geração: o trabalho feito coletivamente, a grande variedade de formatos, a mistura da cor com o preto e branco, o impulso instalativo, a publicação do livro, o site, o financiamento público do projeto, o Vale do Jequitinhonha, quer dizer um mundo de coisas que de alguma forma abriram caminhos e encorajaram outros a se aventurarem por um ou outro desses pontos.
PEDRO DAVID – Tenho muito carinho pelo trabalho inteiro. Ele é minha base. Gosto da forma como todo o processo desdobrou-se em livro. Gosto principalmente da estrutura, desta opção de editar tudo em uma só história. De diluir a autoria individual em um trabalho maior. Chegamos a pensar em separar por autor, cada um ter seu capítulo, ou volume. Mas logo que começarmos a mostrar os portfólios por aí chegamos à conclusão de que a edição única e radical teria mais potência.
O exercício de edição que fizemos ali foi muito importante. Dois votos contra um. Defesa. Aceitação. Isto me ajudou muito a aprender a editar, que é uma das grandes dificuldades de todo autor. Vendo o livro hoje, penso que seria mais rígido ainda na edição – principalmente com as fotos dos colegas! –, oops. Mudaria alguns detalhes, como as páginas pretas, que na época nos atraía, mas durante o processo já trocamos algumas por brancas.
Agora, o que eu realmente gostaria de ter feito é ir lá muito mais, fotografar muito mais. Fiz 15 viagens, de 10, 15 dias cada uma, entre 2002 e 2008. O fomento que este projeto representou para nós três também é digno de nota. Deliberamos desde o princípio que este projeto não deveria se fechar nele mesmo. Já que conseguimos estrutura para realizá-lo, deveríamos criar material para outros projetos. E assim foi feito. Cada um dos três realizou trabalhos importantes em suas trajetórias durante aquelas viagens. No meu caso, realizei um trabalho que depois vim a entender que era a minha motivação em conhecer o Norte de Minas, o interior, ou o Sertão. Base de meu imaginário infantil. O livro Rota Raiz, que foi em sua grande parte realizado durante as viagens que fiz para o Paisagem Submersa.
Sobre a importância do livro, não acho que seja a melhor pessoa para dizer, isto cabe aos nossos críticos! E aí? Na época em que começamos esta empreitada não tínhamos muita notícia de colegas de nossa geração fazendo o mesmo. Eram tempos difíceis, a fotografia estava ainda desvalorizada no Brasil. De lá para cá muita coisa mudou, muita mobilização, editais, prêmios. E muitos colegas hoje me dizem que o trabalho foi importante para eles, que se inspiraram no trabalho para começarem os seus. Fico muito contente quando recebo um feedback destes. Sinal de que além de nos formar, nos colocar em campo, e nos ajudar em outros projetos, o Paisagem Submersa faz isto por outros colegas por aí a fora.
PEDRO MOTTA – Trata-se de um documentário imaginário, hoje uma expressão muito usada e difundida em seu conceito, nos foi dada de presente por um curador de fotografia canadense, o Chuck Sumuel. Essa expressão nos livrou de todo o peso do documentarismo formal e culminou em uma época em que este tipo de trabalho já estava completamente saturado e precisando de novos rumos. Acho que o livro foi feito com um mote documental, mas realizado por três artistas jovens no início da criação de um vocabulário fotográfico próprio.
~ João Castilho aqui no Olhavê ~ Pedro David aqui no Olhavê ~ Pedro Motta aqui no Olhavê ~
