Sofrimento

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Escrevi uma pequena resenha sobre as fotos vencedoras do World Press Photo 2008. O pessoal do Caderno C, aqui do Jornal do Commercio, gostou e publicaram ontem. Tô colocando o texto aqui pra quem tiver afim de ler e não teve acesso ao JC.

Alexandre Belém

Sofrimento. Este é o sentimento que se tem ao ver as fotografias premiadas pelo World Press Photo 2008. O maior e mais importante concurso de fotos divulgou na última sexta-feira os seus vencedores. Nesta 51º edição, participaram 5.019 fotógrafos de 125 países (número recorde do concurso). No total, foram mais de 80 mil fotografias para serem analisadas. Nesta edição, o Brasil participou com 131 fotografias, mas nenhuma delas foi selecionada.

A fotografia premiada como a Foto do Ano foi a do britânico Tim Hetherington. Ela mostra um soldado entrincheirado em um bunker no Afeganistão. A imagem nos revela um homem exausto, exaurido, com medo, sofrido. Puro sofrimento de guerra. Nas outras categorias, mais sofrimento. São atentados e pessoas dilaceradas. São conflitos e pessoas marcadas. Seja no Zimbábue, no Quênia ou no Congo. São guerras intermináveis e todo o sofrimento de soldados que são esquecidos no Afeganistão (é, ainda existe o Afeganistão) e no Iraque. Na américa latina a violência vem da Colômbia. Para os admiradores do fotojornalismo, prato cheio!

Fazendo um recorrido nas últimas décadas, o World Press Photo sempre foi marcado pelas guerras, conflitos civis e raciais. Na década de 80, temos o conflito Irã-Iraque, o aparthaide na África do Sul e o Líbano. Depois, a Guerra do Golfo, já nos anos 90. Teve a questão na Palestina (que perdura até hoje), os Balcãs, Kosovo, etc. Em tempos mas recentes, Afeganistão, Iraque novamente e a África sempre com suas guerras de gangues e tribos rivais. É muito sofrimento.

O curioso é notar que nesta nova edição parece que instituíram um tema para todo o concurso. O que não aconteceu. Saindo das categorias de notícia e entrando em esporte, o sofrimento dá um tempo para a angústia e a tensão de um esquiador e uma avalanche logo atrás dele e, em outra imagem, vemos um surfista se “virando” em um mar furioso. Porém, o sofrimento volta com tudo no ensaio do fotógrafo dinamarquês Erik Refner. Ele retratou as faces sofridas dos atletas na Maratona de Copenhagem logo ao cruzar a linha de chegada. Puro sofrimento.

Nas fotos de natureza, nada de beleza. Ursos polares estão presos em pequenos blocos de gelo e outros animais do ártico são caçados. Em assuntos contemporâneos, a foto do fotógrafo sul-africano Brent Stirton, feita para a revista Newsweek, nos mostra um gorila morto sendo carregado no Congo. Uma das imagens mais fortes desta edição. E, pra arrematar, um ensaio com retratos de crianças que foram abusadas sexualmente. Até na categoria de arte e entretenimento a tônica é o sofrimento: retratos tristes de atores circenses aposentados. No livro “Diante da dor dos outros”, da escritora norte-americana Susan Sontag, tem uma frase do poeta francês Baudelaire (1821-1867): “[…] É impossível passar os olhos por qualquer jornal, de qualquer dia, mês ou ano, sem descobrir em todas as linhas os traços mais pavorosos da perversidade humana […]”. Dependendo de como está começando o ano de 2008, a edição de 2009 do World Press Photo terá o mesmo tema, mais sofrimento.

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  1. Márcia Mendes Campos 21/02/2008

    Bélem!!!
    Que maravilha de análise das imagens do 51º world press photo. Com esta leitura, acredito que a humanidade está vivendo um dos momentos mais conturbados de sua história.Prevalescendo, dessa maneira o pessimismo, a intolerância e como desfecho a violência. Acredito que os juízes deste concurso se recusam a premiar representações que mostrem diferentes realidades das relatadas em seu texto. Pois, eles estariam premiando ao delírio e a simulação; ao invés de premiar a representação da realidade propriamente dita.

  2. Pingback: PICTURAPixel - Bloco de Notas » O trauma de uma guerra esquecida: a história de uma foto premiada.

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