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Maldicidade

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Maldicidade – Miguel Rio Branco

Por Pedro Afonso Vasquez

Talvez fosse conveniente utilizar como epígrafe desse livro sinistramente esplêndido de Miguel Rio Branco a advertência que Dante afirma estar inscrita no Portal do Inferno: “Lasciate ogni speranza, voi ch’entrate”.

Maldicidade é um termo criado pelo autor, que pode ser entendido como “maldita cidade” ou como “cidade amaldiçoada”. Tanto faz, já que o livro se desdobra como um passeio angustiante por um território devastado, como se apreciássemos um inventário do trabalho do Diabo na Terra. Mas, evidentemente, o Senhor das Trevas nada tem a ver com isso: toda essa miséria, todo esse desamparo, todo esse desespero foram produzidos pelo próprio homem. De tal forma que Maldicidade bem poderia se intitular Cidade dos Homens, em oposição ao conceito bíblico de Cidade de Deus, “o santo lugar onde habita o Altíssimo” – que, significativamente, tanto no Brasil quanto na Índia nomeiam zonas de favela.

A cidade maldita de Miguel Rio Branco foi composta por fragmento de diversas cidades, a maioria, senão a totalidade, latino-americanas, a julgar pelos letreiros e inscrições em espanhol e português, apercebidos aqui e ali. Nada as distingue verdadeiramente, já que os locais de tomada das fotografias não são identificados nem mesmo ao final do volume. Podemos inferir que algumas dessas imagens tenham sido realizadas em Cuba ou no México, países em que sabidamente Rio Branco fotografou, mas bem pode ser qualquer outro país da América Latina, pois, como se sabe, a miséria despersonaliza, descontextualiza e nivela por baixo, permanecendo penosamente igual a si mesma em todas as latitudes.

O conhecedor da obra de Miguel Rio Branco é capaz de reconhecer no pungente labirinto de Maldicidade imagens que já figuraram em outros livros ou exposições, mas que aqui, combinados de forma diferentes estabelecem novos diálogos e criam significados distintos. Como se fossem trechos de filmes de época que mudam de sentido dependendo do uso ulterior que deles fazemos. A aproximação com o cinema não é gratuita, já que Miguel Rio Branco transita pelo território da imagem em movimento com a mesma desenvoltura e brilhantismo com que atua no âmbito da imagem fixa. Tal polivalência, aliada à sua formação na ESDI (Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) lhe concedeu o instrumental necessário para que ele se tornasse o mais talentoso e competente autor de livros de fotografia do Brasil. E, também, um dos melhores do mundo, ombreando com Henri Cartier-Bresson, Walker Evans, Robert Frank, Nathan Lyons, Ralph Gibson e James Natchwey, assim como com Robert Delpire, Bruce Bernard, Pierre de Fenoÿl e Gerhard Steidl. Fotógrafos e editores que, muito antes que o atual modismo dos chamados fotolivros surgisse, estabeleceram as bases da edição fotográfica intrinsecamente imagética e pertencente ao domínio da linguagem fotográfica, dotada de sintaxe própria e original, totalmente desvinculada das influências da escrita literária ou das convenções anteriormente imperantes na produção dos livros de arte ou de imagem.

Todos os livros de fotografia de Miguel Rio Branco são ótimos, mas com a tríade integrada por Silent Book, Você está feliz? e Madicidade (todos editados pela Editora CosacNaify) ele atingiu um nível de excelência personalíssimo e incontestável.

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Mais colaboração de Pedro Vasquez no Olhavê:

Em 2013, o texto A Fotografia morreu. Viva a Fotografia!

Em 2011, A foto que eu queria ter feito.

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