Artigos e textos
Deixe um comentário

A deslealdade do tempo

Me acuerdo que en el Monopoly la Gran Vía es verde, la calle Bailén, amarilla, y la Avenida de América, roja.

Fotos: Juan Santos

A deslealdade do tempo

Georgia Quintas

Anima a memória sabermos que podemos dar ouvidos à ela como numa confidência? A memória escapa de si mesma. Talvez o tempo esteja impregnado dessas respostas. Assim como nem sempre lembramos, maldizemos o esquecimento. O tempo deglute a lembrança por razão efêmera, se desalinha e se distancia do que nomeamos como recordar.

O ensaio do fotógrafo espanhol Juan Santos, Me acuerdo – publicado pela editora Phree – surge da tentativa de conter o apagamento, a desolação em chamar a recordação, e dela não vir nada, só lacunas. Na publicação, uma das mais contundentes de uma safra recente de fotolivros, a recorrência da expressão “me lembro” constitui estratégia em preservar o fio do passado. A pesquisa de Juan Santos trata desse modo, intercalando imagem e texto, certo conflito familiar como sintoma da deslealdade causada pelo tempo e suas implicações ao berço das recordações. Me acuerdo destaca o que fora borrado da vida, apagado, dos pacotes caídos no limbo da existência de uma história. Espécie de fenecimento de acúmulo na alma.

Num movimento de relatar a perda de memória materna, Juan Santos acessa cuidadosamente seu discurso pela infância e presente maturidade, pelos objetos que auscultam o rastro da temporalidade. “Me acuerdo nasce de uma necessidade e uma impotência. A necessidade como fotógrafo de falar da desaparição de uma memória próxima que também era minha memória. Quantas perguntas que já não podia fazer, quantas lembranças não podia recuperar. E da impotência para encontrar o modo de contar essa experiência pela fotografia. Necessitava encontrar uma voz adequada para narrar esse tema, e a busca por esta voz me levou um certo tempo”.

Por esta busca em construir narrativa pertinente sobre o passado, Me acuerdo dilata seu tema pelo gesto pulsante em documentar coisas, objetos, ambientes, conectando-se ao que se toca pelo reconhecimento. Santos enfatiza o protagonismo dos seres-objetos. Acredita assim que “muito das recordações que cremos possuir não são senão construções posteriores a partir de pequenos detalhes, do golpe de luz das lembranças. Falar da memória por meio dos objetos também era um modo de refletir sobre essa reconstrução que fazemos do passado, pela qual dotamos os objetos de histórias vividas”.

Com a presença cadenciada de sua fala em primeira pessoa, nos aproximamos das coisas fotografadas por sutil nostalgia. As imagens do livro remetem a naturezas, não mortas, mas suspensas em nós mesmos. Avaliamos a cada página a poética narrada pelas palavras que ecoam na fotografia, um percurso de mão dupla pelo qual amplia nossas associações, e revigora o discurso de preenchimento de sentido. A edição roteiriza cenários, de tal modo que se caminha suavemente por elementos de possível cotidiano. O ritmo sutil concebido por Juan Santos suscita momentos corriqueiros de um elo feminino, sua mãe, Paulina, quando escreve: “Me lembro dos produtos da marca Avon que chegavam em casa em grandes caixas e dos frascos de colônia com formas de boneca”.

Me acuerdo insiste em observar os objetos de forma oblíqua, de soslaio, como quem enxerga de muito perto, quase os tocando por movimento dúbio de lembrança sonhada e coisas concretas. As imagens de Juan Santos transitam por algo próximo ao que o escritor Jorge Luis Borges comenta que o tempo imita a eternidade ao girar em torno da alma, sempre desertor de um passado, sempre insistente do porvir.

A fotografia sempre desvelou espécie de certeza em guardarmos a memória do que narramos sobre a família. Seria um tipo de alento em apaziguar a passagem do tempo. Como faz Santos, ao escrever sobre a lembrança das mãos da sua mãe ao tocar as da neta, também Paulina. O toque de mãos tão frágeis ocorrera num “misto de familiaridade e estranheza, reconhecendo algo seu, sem saber exatamente o porquê”. Contudo, o tempo dará conta que a neta possa lembrar desse gesto e de todo o resto a partir do que se conserva da memória em um livro.

* Texto originalmente publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo em 15 de março de 2015 (http://goo.gl/rqU8mO).

Juan-Santos-02

Juan-Santos-03

Juan-Santos-05

Juan-Santos-06

Juan-Santos-07

Juan-Santos-08

Juan-Santos-09

Juan-Santos-10

Juan-Santos-11

Deixe um comentário