“Não tem lógica nenhuma”

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Foto 1

Foto 2

Este post iria se chamar “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”.

Como muita gente sabe, sou repórter fotográfico de jornal por essas bandas e estava no plantão, ontem. Plantão básico num sábado e o Recife se acabando de chuva. E sua filha não entende porque o pai trabalha final de semana e feriado! Já perto de largar, depois de uma ronda de polícia, surge a pauta: barreira invadiu uma casa. Sigo para o bairro de Tabatinga na cidade de Camaragibe, região metropolitana do Recife. Depois de muito procurar, acho a casa.

Era uma barreira pequena que invadiu uma casa, colada na barreira (foto 1). Encontro um grupo de mais ou menos uns 10 homens comendo umas frutas tropicais e, de leve, uma cachacinha Pitú. Nada melhor num dia chuvoso. Um cidadão, amigo do dono da casa, me recepciona e me leva para dentro da micro residência (foto 2). A casa é apenas um vão: sala, quarto, tudo. Debaixo da mistura de terra e parede, está a cama de Seu Henrique. Ele está bem, pois estava sentado vendo tv e se salvou.

Quando começo a fotografar, chega o dono da casa. Seu Henrique, totalmente biritado, porém sóbrio [?!], e com um bafo que quase desmaio. A primeira frase dele foi: “Tira o tijolo de cima da televisão. Aquilo não aconteceu. Não tem lógica nenhuma”.

O amigo tirou o tijolo que não foi “obra” da barreira e estava maquiando uma realidade e  “incomodou” Seu Henrique. Então, fiz a foto aí de baixo.

Pois é. Nunca pensei que viria uma cena ser modificada para ela ser mais verdadeira. Como disse Seu Henrique, depois de umas lapadas de cana: Aquilo não aconteceu”.

Vocês estão acompanhando os comentários neste post aqui? O debate por lá está bem legal e realidades e ficções estão rondando por lá.

Fotos: Alexandre Belém

 

Comentários 28

  1. o maravilhoso seu henrique só se espantou tanto porque nunca viu uma foto de um editorial da vogue américa! aquilo sim que não tem lógica nenhuma. hahaha desculpa eu tinha que dar minha opinião abestalhada.

    aqui tá cada vez melhor, belém! nem sei porque eu só venho uma vez por semana. ah, sei! porque eu sou abestalhada!

    beijo. e manda beijo pra georgia!

  2. Eita Gilvan, foi mal. Corrigindo:…pra conhecermos Antonio e não Joaquim como falei no post acima. Vi o vídeo “Vidinha boa em Recife”, show de bola.
    abraço

  3. Pingback: Olha, vê | Alexandre Belém » “Lampadinhas coloridas”

  4. Pois é Gilvan, acho que era do Santa Cruz já Belém acha que era do Sport kkkkk
    Realmente pegamos uma fase já diferente quando chegamos no JC e ouvíamos essas histórias como causos da época, ainda damos muitas risadas quando se conta essas “piadas”.
    Nem fale essa história de neguinho ir atrás do personagem que o repórter quer para confirmar sua tese. Temos de lutar contra.Como se sabe, existe por parte dos “canetinhas” toda uma cultura de que o “retratista” (como costumam falar) não é pago para pensar. Cabe a nós, que fazemos o mercado, tentar mudar essa realidade e o pensamento deles. Infelizmente não existem fotógrafos ocupando cargo de diretores de redações, quer seja de Revista ou Jornal…Hélio Campos Melo é uma exceção a regra. São passos de formiga, mas adiante. Chico Science dizia que “um passo a frente você não está no mesmo lugar”, Jarbinhas completa com “um passo atrás, o mesmo efeito terá”.
    Se para a fotografia se desenvolver no eixo sul-sudeste do país, imagina a ralação que é fazer ela se desenvolver no nordeste. Iniciativas como o Blog de Belém, Curso de Graduação de Fotografia na cidade (em breve terá pós-graduação) colocando muita gente boa pra passar seus conhecimentos pro mercado (Eduardo Queiroga, Roberta Guimarães, Georgia Quintas…), Galeria da Arte, Arte lural, se dedicando a difundir a fotografia, trazendo gente de peso do cenário nacional para conversar com o pessoal daqui… Isso tudo vai fazendo com que cada vez mais finquemos raízes para mostrar que sim, é possível participar de um cenário nacional, fazer contatos, projetar o seu trabalho a partir do mercado local. Enfim, estamos conseguindo segurar os valores na terra.
    Hoje as coisas por aqui estão bem diferentes daquela época em que profissionais do seu quilate, de Pio, de Heudes Régis, de Ricardo Borba (hoje Labastier) deixaram a terrinha em busca de voos maiores.
    Quando tu vier aqui dá o toque pra gente tomar umas, bater um papo e pra conhecermos Joaquim.

  5. estou lendo “realidade e ficcoes na trama fotografica” de Boris Kossoy, e esse post e a discussao q ta rolando a partir do processo de criacao do Anderson estao enriquecendo minha leitura, acrescentando elementos conceituais, visuais… tá rico demais!

  6. sobre tratamento de imagem e manipulação digital, concordo com o homem acima de mim: essa conversa não tem fim!

  7. essa do gilvan me tirou umas boas risadas. como um repórter pode ser probido de fotografar “gente feia”? ixe que eu nao ia sair em muitas revistas!

  8. Fala Arnaldo,
    já tinha esquecido essa da camiseta. Qual era o time mesmo? Santa Cruz? rsrsrs….
    Acho que em todos os jornais existiam esses camaradas armando fotos descaradamente.
    Nem chegamos a pegar uma fase tão complicada, quando começamos no JC a discussão já era mais interessante, concorda? Todas essas histórias eram contadas em tom de piada, claro.
    Acho engraçado questionamento sobre o tratamento de imagens.. se altera ou não a realidade e tal… essa conversa não tem fim.
    Não quero levantar debates. Mas pouco se fala sobre a forçada de barra que antecede a chegada da pauta na mão do fotógrafo. Neguinho se mata para achar o personagem “x” que diga exatamente o que o repórter/editor espera, que se encaixe numa faixa etária específica, que não seja tão feio, que não pareça pobre…. como vcs sabem, tem revista que está proibida de fotografar gente feia (fico imaginando como se mede isso). Depois de tudo isso, acho uma grande piada ficar discutindo se o tratamento da imagem alterou a “realidade”. Opa!!! Bom senso aqui para lembrar que nem todos os casos são iguais.

    Só para deixar claro que tô me divertindo com toda essa conversa. Concordo com Belém que os pedidos de desculpas são dispensáveis. Algumas vezes pode ser difícil entender o tom que cada um tá falando. Por isso rola uma mal entendido aqui ou alí. Mas é clara a cortesia, edução e respeito de todos que comentaram acima. Grande abraço

  9. eita que o debate está animado, hein? gostei mto, mto mesmo das opiniões de vcs

    michael, eu nao quis falar no sentido mal da frase que jornal é sinônimo de despreso, mas a pressa é a velha inimiga da perfeição e eu entendo o dia a dia de vocês perfeitamente. isso foi mais um “entendo que nem sempre sai o melhor porque nao é o fotógrafo que decide no final”

    o que mais gostei da discussão de belém foi o ponto do que ser ou nao realidade, como perder uma casa e tomar cachaça depois pra mim é irreal. um desastre agora é do cotidiano e um tijolo parece algo tão simples diante de algo tão real. nao sei se capitei a idéia do post…

  10. Clicio,

    Nos conhecemos… E sei que uma coisa você é: gentil e educado. Não achei que foi ofensa. De jeito nenhum.

    Vou repetir o que falei para o Ivan: “Respeito a opinião de todos e ela é muito importante nesse processo de comentários que tem a ferramenta blog”. Você sabe muito bem disso.

    Fico muito feliz com o tamanho da discussão que está por aqui e no post de Anderson Schneider.

    Michael, Sérgio e Arnaldo: legal ver a galera de jornal colocando a sua opinião.

  11. E isso por um acaso é jogo dos 7 erros? se for, coloca as duas fotos lado a lado pra gente achar os objetos que faltam.
    Acho que Belém conseguiu tocar numa questão crucial antiga e também atual com esse post: “A Escola de Fotojornalismo de Manipulação da Realidade”. Coisa ainda bastante comum hoje em dia. Fotojornalistas com comportamento de diretor de cena, só falta levarem o megafone para pedir pro pessoal da passeata levantar as mãos, só falta um chicote para açoitar o criminos e ele ficar com cara de raiva. Uma coisa é o “Real” e outra é a “Manipulação do Real”. Belém chegou ao local e foi fotografar o que viu, não montou nada, aquela era a realidade do momento, alterada depois pelo dono da casa. Não somos peritos criminais para analisar se a cena foi modificada ou não antes da nossa chegada. Somos fotojornalistas e como tal devemos ser o mais fiel ao momento possível, somos os olhos do leitor, e como tal não devemos ludibriá-lo.
    Como Gilvan citou acima o caso da boneca, já ouve há muito tempo também casos de fotógrafo andar com camisa do time que não gostava dentro da bolsa para quando fosse fotografar algum bandido obrigá-lo a vestir. Com um tempo, ficava na mente da população que tal time tinha a maioria dos torcedores marginais. Conduta eticamente e moralmente condenável…entre tantos outros casos que ainda rolam, basta analisarem as fotografias.
    O bom para um editor, é quando você tem profissionais do calibre que temos aqui no Jornal do Commercio (JC Imagem) e que tem um compromisso com os fatos, relatando o ocorrido aos editores para não serem induzido ao erro na edição. Afinal, ninguém melhor que um repórter fotográfico que estava na rua para indicar por onde deve caminhar a edição e nos contar qual foi o ápice do acontecimento. Ruim é quando se vai à rua apenas para confirmar uma tese levantada na cabeça do editor. O caminho tem de ser da rua para a redação, na maioria das vezes, e não o inverso. Essa é a nossa filosofia de trabalho.
    P.S. Lidiane, com certeza Belém não trabalha aqui no JC para garantir o seu salário mensal e investir em projeto autoral, não é o emprego acima de tudo, só quem não o conhece e conhece outros daqui para falar isso. Você pode até não acreditar, mas ainda existem pessoas que se embriagam e amam aquilo que fazem. E se fosse o emprego acima de tudo, não existiriam excelentes fotógrafos trabalhando fora de jornal, revistas, agências… fazendo maravilhosos projetos autorais e sem dependerem de um salário fixo.

  12. Belém, Sérgio
    Em primeiro lugar, não falei de “erro” nunca, em nenhum momento; em segundo lugar não critiquei o Belém; em terceiro lugar, vejam como é estranho; um fotopublicitário como eu, acostumado a receber porrada há 30 anos só por ser publicitário, tendo que entender que, a profissão de fotojornalista (que insiste no ponto-de-vista antigo e historicamente insustentável que a fotografia “pura” é apenas a documental) é sofrida. E *não* estou falando de vocês dois…De ninguém em especial.
    Qual profissão levada com ética não é sofrida?
    Mas voltando ao foco, desculpem se pareci ofensivo, não foi a intenção. Só questiono os dogmas do fotojornalismo, e *não a ética ou dificuldades* do fotojornalista pessoa física. Sérgio, porque dizer que o fotojornalista só tem compromisso com o autoral, seja lá o que isso queira dizer? Veja que paradoxo, o fotógrafo publicitário, tão desprezado, tem sim compromiso com o layout do cliente, com o prazo, com os custos.
    Mas voltando mais uma vez ao foco; usei o tijolo como uma metáfora, e não para pontuar o acontecido. O tijolo do Belém não tem absolutamente nada de errado, nem a sua postura profissional, *mas colocar a bonequinha tem sim!*
    Ou vocês não concordam? Acham “normal” dada a pressão das redações?
    Vejam, tenho 35 anos de fotografia profissional e nunca arrisquei ser fotojornalista pelo peso da responsabilidade que o nome implica…
    🙂

  13. marcos michael 25/05/2009

    Lidiane e demais, claro que o dia-a-dia em jornal é corrido, sofrido, difícil… mas é uma profissão que também tem a sua parte boa. Não é o emprego acima de tudo não. Não é só pra pagar as contas não!
    Trabalho com Belém, e assim como ele já fiz centenas de plantões. Deslizamentos já perdi as contas e posso afirmar, todas as cenas são muito parecidas.
    Ora, minha gente, se o problema é o tijolo, eu digo que mesmo parecendo “impossível” ele poderia sim ter caído em cima da televisão. Da mesma forma que existem fotografias de avião caindo, baleia encalhada em plena praia de Boa Viagem e tantas coisas inusitadas. Não podemos questionar tudo, principalmente antes mesmo de fazer a nossa principal função que é fotografar.
    Claro, não é fotografar sem pensar. Mas ele, Belém, não colocou tijolo em lugar nenhum, muito pelo contrário, fez a cena como ela se apresentava. Ora, não é isso um dos grandes princípios do fotojornalismo?! Foi o seu Henrique que no auge de sua lucidez quem disse que aquilo não fazia sentido, mas poderia até fazer… Daí o bendito tijolo foi retirado e a foto foi feita com todo o pudor que se necessita.
    Errar é humano? Claro que sim, e erramos todos os dias. Mas minha gente, nesse caso não existe erro. É simples como retirar o tijolo. Não vamos complicar o que não precisa.
    E outra coisa, claro que precisamos de dinheiro para pagar contas e para fazer algo mais autoral. Eu tenho meus trabalhos autorais e meus ideais. Comecei há 10 anos a trabalhar em redação pois esse era o meu desejo profissional, e ralei muito nesse tempo. Não concordo que nesse caso o “errar é humano” seja utilizado como justificativa por uma rotina desgastante.
    Olho mil vezes pra esse exemplo e não vejo erro algum.

    Abraços.

  14. Entendo o quanto é difícil o dia a dia em uma redação de jornal e olhar certos aspectos com o tempo correndo e caderno fechando fica inviável. é o emprego acima de tudo porque necessita-se de dinheiro para poder investir em algo mais autoral.

    acredito que o repórter fotográfico nao foge do real, mas às vezes algumas coisas escapam. errar é humano, nao é?

  15. Ivan,

    Em primeiro lugar: não precisa se desculpar. Respeito a sua opinião e ela é muito importante nesse processo de comentários que tem a ferramenta blog.

    No seu primeiro comentário, tem uma frase bem pertinente e atual: “[…] interessante viés jornalístico de dever parecer que houve, independentemente do acontecido.” É verdade.

    Também concordo quando você fala que “a própria presença da reportagem altera os contextos humanos […]”. É verdade.

  16. Aexandre;

    Peço que você me desculpe, pois de nenhum modo quis desmerecer a profissão de foto-jornalista, nem minimizar suas dificuldades nem suas igualmente enormes oportunidades de uma profissão que coloca a pessoa dentro do grande drama humano e disso ter resultado desde seu nascedouro uma riquíssima fotografia, uma belíssima tradição e das mais importantes para a fotografia como um todo.

    Apenas, no caso, surge uma questão de fundo. “Aquilo que de fato aconteceu é inverossímil”. E isso é paradoxal, pois por natureza o Real é pensado como o que de fato acontece, e aqui temos um caso onde o Real, não entendendo essa palavra como uma instância metafísica, mas meramente como aquilo pensado como Real pelas pessoas, não aceita o acontecido. É essa a questão a mim mais interessante, sem absolutamente desmerecer a problemática da reportagem fotográfica, que entendo ser sua procupação.

    E quando ocorre essa percepção do inverossímil, isso recoloca o pensamento sobre o assunto. Você bem sabe que a própria presença da reportagem altera os contextos humanos, torna, em alguns casos, os presentes atores de situações de narrativa esperada, quase encomendada. Torna os presentes atores do Real habitante da imaginação do público, isto é, eles deixam de ser eles mesmos e cumprem um papel coerente com a demanda do público, demanda essa que sabem qual é porque são também público em outros momentos, então participam dessa relação complexa entre a mídia e o público, relação da qual emerge um Real ficto, podendo ser dito um Real-Imaginário (pedindo licença para o oximoro), que, ao fim e ao cabo, torna-se pauta para a produção fotográfica.

    O caso relatado por você é sumamente interessante, e eu não tenho nenhuma opinião sobre o que deveria ser feito, nem sequer pensei nisso. Somente pareceu-me tão interessante como sintoma desse descasamento entre Real-Imaginário e acontecimento a ponto de valer o comentário e o relevo nisso.

    Abraços,
    Ivan

  17. Eu acho que não é tão óbvio assim. As duas perguntas.

    Também não acho que seja tão óbvio “que o fotógrafo, ‘na medida do possível’, se certifique de que a cena reflete o acontecido, sem maquiagem”. Na realidade, esse “se certique” para mim é muito subjetivo e merece mais debate. O meu “olho” é diferente do de Clicio, Sérgio, Ivan. cada olho tem seu tempo rodado, seu olhar, que envia o “certificado” e carimba a decisão ou não decisão.

    Sobre o buraco ser mais embaixo, se é para falar de buraco, acho que ele começa lá atrás: educação, ética, cidadania. Fui educado para não furar fila de elevador, não entrar com o carro pela contra-mão, ser educado. Isso reflete no meu trabalho. Sendo fotojornalista ou dentista.

    Acho que sempre recorrer a questões como “o buraco é mais embaixo” ou “[…] vocês estão se atendo ao aspecto mais desinteressante da questão, que é relativo à atividade do reporter fotográfico. Para além desta questão, há outra muito mais sutil e bonita […]” é desmerecer o trabalho, o dia-a-dia de quem está fazendo e vive as dificuldades. É sair para questões mais teóricas, também, muito importantes e debatidas aqui neste blog.

    Sérgio levantou problemas. Problemas que ele sente, que outros fotógrafos de jornal sentem. Que está muito presente na rotina do repórter fotográfico e na chamada crise do fotojornalismo atual. Também tem a relação com repórter, editor, departamento de arte, etc, etc, etc, etc.

  18. Belém, Sérgio,

    É óbvio que o repórter-fotográfico também é jornalista, não? É óbvio que os mesmos princípios do jornalista-texto se aplicam ao fotógrafo, não? Logo, me parece óbvio que o fotógrafo, *na medida do possível*, se certifique de que a cena reflete o acontecido, sem maquiagem.
    “Bonequinha andando” me parece um absurdo, uma falácia, um engodo muito mais criminoso que o Photoshop, não?
    Se o argumento apresentado pelo Sérgio (falta de tempo no momento da ação) se sustentasse, não haveria bonequinha andando nem tijolo tirado (ou colocado) na televisão!
    Por outro lado, estou com o Ivan e com a Lidianne; o buraco é mais embaixo. Preguiça não justifica o clicar mal, independente da cena; tem bonequinha? Ótimo. Não tem bonequinha? Se vira, malandro!

  19. mas o trabalho do fotógrafo é a realidade e apenas apertar o botão é todo o diferencial entre olhar a cena e ver a cena.

    sei que no cotidiano nao é se tem muito disso, mas vale a pena uma reflexão.

  20. Belém,

    este post me lembrou uma das tantas histórias engraçadas que o velho Arruda contava nos corredores do Jornal do Commercio, em Recife. Numa delas, ele falava de desabamento de uma barrerira. Só que nesse caso uma criança tinha morrido soterrada.
    Na redação, o editor começa a analisar o filme do fotógrafo que cobriu o desastre e já nos primeiros fotogramas elogia a sensilibidade do autor. Era uma foto do desabamento com uma bonequinha melada de barro no primeiro plano. Com certeza, o editor comemorava a boa opção que teria para o oferecer para a primeira página.
    Lá pela metade do filme, o editor nota que a cena se repetia com fundos diferentes. O fotógrafo ainda curtia elogio quando o chefe grita: “Rapaz, essa boneca andou!!!!!!”. Parece que o fotógrafo gostou tanto da idéia que saiu carregando o brinquedo e experimentando outros planos de fundo, ângulos… um verdadeiro ensaio da boneca. rrsrsrs…
    Os mais velhos aí no Jc devem lembrar mais detalhes… Aliás, onde anda o velho Arruda? Por trás desses “causos” sempre tinha uma questão ética a se discutir. O aprendizado na base da risada. Se o Seu Henrique estivesse por lá, essa boneca não tinha andado, hein? Grande abraço e parabéns por este espaço. abs

  21. Desculpem-me, mas acho que vocês estão se atendo ao aspecto mais desinteressante da questão, que é relativo à atividade do reporter fotográfico. Para além desta questão, há outra muito mais sutil e bonita, que é da esperabilidade do Real, isto é, daquilo que pode ser crido como Real.

  22. Puts! Se a cada foto que um repórter fotográfico fosse fazer tivesse que se perguntar, ou perguntar a alguém, se aquilo é realmente o que está ali na frente dele muitas pautas estariam perdidas antes dele ter chegado à uma resposta ou à uma conclusão.

    Pra começar deveríamos pensar o quanto no jornalismo (não só no fotojornalismo) é realidade ou “produção”.
    Quantos personagens arranjados (para falar o que os repórteres querem) somos obrigados a fotografar?
    Quantas pautas temos que forçar a barra para satisfazer a intenção dos editores e repórteres?
    Quantas fotos temos que produzir (manipular?) pra poder dizer aquilo que pretendemos?
    Quanto da imagem pode ser manipulada (?) antes mesmo de se fazer o click?
    Isso tudo é ou não é ético?

    Essas perguntas não têm resposta simples ou objetivas, só sei que é difícil ver até onde uma foto ou matéria produzida pode ou não ser “manipulada”.

    Uma coisa eu tenho certeza, discutir e debater é preciso.

  23. Interessante como um homem teve uma noção tão forte do que serial ou não, preocupação que nem ao menos passou pela cabeça do jornalista.
    Fiquei pensando em quantas vezes se alterou uma realidade e ninguém ao menos comentou por aí ou pensou no quanto aquele detalhe era iverossímel.

    Vem verdade que um tijolo em cima da TV, parado, queto, é iverossímel.

  24. Clicio,

    Qual a obrigação de um repórter fotográfico? Perguntar antes de fazer qualquer foto?

    Particularmente, um monte de barro e uma parede sobre uma cama é bem mais importante que uma tv no canto do visor. Só reparei que tinha uma tv quando Seu Henrique falou.

    Por outro lado, será que Seu Henrique estava mesmo pensando na cena alterada? Será que ele estava apenas pensando na tv, único objeto salvo na tragédia, com um tijolo pesado em cima?

    Acho que a coisa é mais simples do que o filme Matrix…

  25. No célebre “A terceira margem do rio” do Guimarães Rosa, há uma frase mais ou menos assim: “Isso não havia, acontecia”. Dá conta mais ou menos da mesma coisa relatada por você, de um domínio de possibilidades de haver, fora do qual fica falso mesmo quando aconcetecu de fato, e do interessante viés jornalístico de dever parecer que houve, independentemente do acontecido.

  26. Pois não era sua obrigação, Belém, perguntar se aquela cena refletia o que tinha acontecido *antes* de clicar a 1a foto?
    Ou precisou da birita do seu Henrique?
    Engraçado como o seu Henrique quis preservar o “real”, como se este existisse…
    🙂

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