J. R. Ripper

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QUEM | J. R. Ripper

ONDE | Rio de Janeiro.

PORQUE | É uma grande honra para o Olha, vê trazer uma entrevista com Ripper. Principalmente, mostrar as suas fotografias. Ripper faz uma fotografia clássica. Clássica em tudo de positivo e bonito que pode carregar esta palavra. Completando 35 anos de fotografia, Ripper mantém o vigor e suas imagens são arrebatadoras.

Foto: Tamires Kopp

Currículo fornecido pelo fotógrafo:

Trabalhou como repórter-fotográfico dos seguintes jornais e agências fotográficas: Luta Democrática, Diário de Notícias, Última Hora, O Globo, Agência F4 e Imagens da Terra.

Atuou como diretor na Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro, no Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro e na Federação Nacional dos Jornalistas. Foi coordenador das campanhas pela obrigatoriedade do crédito na fotografia e contratos de direito autoral e o responsável pela criação e implantação das tabelas de preços mínimos. Idealizador e coordenador do Projeto Imagens do Povo do Observatório de Favelas. O projeto engloba a Escola de Fotógrafos Populares e a agência Imagens do Povo.

Fundador e coordenador da organização não governamental “Imagens da Terra”, entidade de defesa dos direitos humanos, atuando principalmente na cobertura fotográfica de conflitos sociais (sem terra, índios, trabalho escravo, trabalho infantil, favelas, entre outros).

Atualmente desenvolve trabalhos como freelancer para os seguintes órgãos: Washington Post, New York Times, Le Mond , Herald Tribune, Revista Nacla, Revista da Fundação Ford, Revista Tempo e Presença, Revista Novamérica´, Revista Senac, Educação Ambiental, Agencia Rapho, revista Século, Revista Marie Claire, Revista Caros Amigos, Revista Veja, Revista Tudo , Revista Domingo (Jornal do Brasil), Revista Sem Fronteiras.

É professor convidado do curso de Pós-Graduação em “Fotografia como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais”, da Universidade Cândido Mendes (Rio de Janeiro).

Desde 1995 coordena oficinas de treinamento para professores universitários e da rede de ensino médio e estudantes. Há 13 anos faz documentação social em comunidades indígenas do Mato Grosso do Sul, principalmente entre os Guaranis-kaiowás. Documenta trabalho escravo e infantil, com enfoque especial para fazendas na Amazônia, principalmente no sul do Pará, e projetos de recuperação de crianças, além de atividades de grupos de profissionais como carvoeiros, caranguejeiros e marisqueiras.

Site do Imagens Humanas, banco de imagens de Ripper, aqui.

Criança carvoeira em Ribas do Rio Pardo (MS)

Casal de carvoeiros – Minas Gerais

OLHA, VÊ Como o senhor entrou na fotografia?

J. R. RIPPER Aprendi com o fotógrafo Júlio Cezar Pereira, um colega de segundo grau e excelente fotógrafo. Até hoje somos amigos.

OLHA, VÊ Qual foi o aprendizado – e a importância para o fotojornalismo atual – com agências como a F4 e Angular?

J. R. RIPPER As agências F4, Angular e também a Ágil tiveram uma grande importância para o fotojornalismo e pra fotografia documental pois foram os principais instrumentos para o vôo independente dos fotógrafos. Através dessas agências o fotógrafo pode pensar seu tema, sua pauta, como documentar, ver a viabilização econômica e depois a edição e escoamento de seu trabalho. Foram possíveis trabalhos coletivos também.

OLHA, VÊ Como o senhor avalia o fotojornalismo que é produzido nos jornais atualmente?

J. R. RIPPER Acho que o fotojornalismo precisa novamente de um grande grito de liberdade e de nova organização dos fotógrafos para readequar seus caminhos. Não podemos permitir que o jornalismo seja usado para segregar, separar ainda mais pobres e ricos. Temos excelentes jornalistas e foto jornalistas e precisamos sair um pouco dessa tutela do poder que hoje é econômico e político e rotula tanto nosso trabalho.

OLHA, VÊ A questão do autor tem sido tema de debate. Tanto o crédito – como o coletivo Cia de Foto que é criticado por assinar apenas com o crédito do coletivo – e coisas como o questionamento da autoria. O autor é quem aperta o botão ou que tem a ideia? O senhor tem acompanhado esse debate? Qual a sua opinião?

J. R. RIPPER Não tenho acompanhado tanto esse trabalho mas acho que a Cia da Foto tem uma opção coletiva e fazem um trabalho coletivo e preferem assinar assim e isso é positivo. O que não pode é ter um pensamento que acabe com a autoria e a responsabilidade individual por um trabalho. A obra de arte traz em si a extensão da personalidade do autor. A autoria coletiva e a individual podem caminhar juntas.

OLHA, VÊ A sua fotografia é de envolvimento com o assunto e com o personagem fotografado. Poderia ser diferente num campo como o que o senhor atua?

J. R. RIPPER Não consigo enxergar de outra forma. Pra mim fotografar é reconhecer e descobrir valores. Como fazer um trabalho que se propõe a servir aos direitos humanos se não acontecer o envolvimento entre fotografado e fotógrafo?

OLHA, VÊ Qual o segmento da fotografia que é necessário uma total imparcialidade?

J. R. RIPPER Acho a imparcialidade uma grande hipocrisia.

Carvoeiros – Minas Gerais

Carvoeiros – Mato Grosso do Sul, 1988

Trabalho escravo no Pará, 2001

OLHA, VÊ Uma das coisas mais interessantes que ouvi no FestFotoPoa foi quando o senhor afirmou que a fotografia preto e branco lembra a magia do rádio. Fale mais sobre isso.

J. R. RIPPER Fotografar é um enorme prazer e gosto de fotografia em geral, seja ela cor ou preto e branco. Minha paixão é o pb e diferente da fotografia cor as cores não são determinantes pra quem vê a imagem que vai estar sempre em preto, branco e tons de cinza. Acho que isso traz a atenção pra essência do tema. Tem ao mesmo tempo um caráter selvagem de mergulhar em busca da essência, uma crueza e desafia o imaginário a compor as cores como se cada espectador fosse o pintor da própria vida a partir de uma tela de imagens cruas. Assim como no rádio, a fotografia pb permite uma comunhão forte entre o real e o imaginário entre a realidade e o sonho, entre o documental e a arte.

OLHA, VÊ Qual foi a pauta mais complicada que o senhor já enfrentou?

J. R. RIPPER Acho que a que estou tentando fazer agora. Documento mulheres que estão sendo processadas por um dia terem cometido aborto. É um assunto delicado. Essas mulheres estão sofrendo muito, sendo descriminadas, isoladas, amedrontadas, julgadas e execradas por boa parte da sociedade e do poder. Isso mexe muito com a maravilhosa essência da alma feminina.

OLHA, VÊ Quais os fotógrafos que são as suas referências?

J. R. RIPPER W. Eugene Smith.

OLHA, VÊ O que lhe chama atenção na fotografia atualmente?

J. R. RIPPER O aparecimento de fotógrafos que documentam a própria realidade e que estão fazendo isso com maestria e também o crescimento de um movimento, me parece ainda inconsciente, que assume o direito de informar, independente de diplomas e registros. O uso da internet, sites e blogs onde fotógrafos trocam conversas e fotos.

OLHA, VÊ Hoje, o que lhe ainda lhe atrai fotografar ou ainda pensa em fazer? Quais são os seus próximos projetos e ensaios?

J. R. RIPPER Hoje me divido em documentar a vida de segmentos injustiçados e segredados na sociedade formal e pensar escolas de fotógrafos populares como a da Maré.

Trabalho análogo ao de escravo no Pará, 2002

Índio guarani Kaiowá canavieiro, vítima de trabalho análogo a escravo, Mato Grosso do Sul

Trabalho escravo em fazenda de cana de açúcar no Mato grosso do Sul

Comentários 9

  1. Taty Coppola 23/04/2010

    “Acho a imparcialidade uma grande hipocrisia.”

    Ou seja: Imprimo minha percepção do assunto em todas as minhas imagens.
    Será que seria este o motivo por nos sentirmos tão “próximos” nos retratos de Ripper?
    Alexandre, obrigada mais uma vez!

  2. “Pra mim fotografar é reconhecer e descobrir valores. Como fazer um trabalho que se propõe a servir aos
    direitos humanos se não acontecer o envolvimento entre fotografado e fotógrafo?”
    Acho sim (e acho mesmo!) que a imparcialidade, nesses casos, é uma grande hipocrisia, além de não render
    boa saúde às memórias. Quem não se lembra de Kevin Carter?!

    “(…)
    Toda pessoa sempre é as marcas
    Das lições diárias de outras tantas pessoas
    E é tão bonito quando a gente entende
    Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
    E é tão bonito quando a gente sente
    (…)
    É tão bonito quando a gente pisa firme
    Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
    É tão bonito quando a gente vai à vida
    Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração”

    (Gonzaguinha)

    P.s. : Me emocionou muito as fotos em P&B, e se a intenção é “…desafia(r) o imaginário a compor as cores como
    se cada espectador fosse o pintor da própria vida a partir de uma tela de imagens cruas.”
    Há muito o que se pintar no Brasil dos excluídos, mas parabéns pelo bom uso que você faz do seu ‘pincel’ em tons
    de cinza.

    Sucesso Ripper!…e Alexandre valeu por me apresentar esse GRANDE fotografo.
    Não canso de vim aqui!

    🙂

  3. Ana Correia 07/07/2009

    “Pra mim fotografar é reconhecer e descobrir valores. Como fazer um trabalho que se propõe a servir aos
    direitos humanos se não acontecer o envolvimento entre fotografado e fotógrafo?”
    Acho sim (e acho mesmo!) que a imparcialidade, nesses casos, é uma grande hipocrisia, além de não render
    boa saúde às memórias. Quem não se lembra de Kevin Carter?!

    ?
    (…)
    Toda pessoa sempre é as marcas
    Das lições diárias de outras tantas pessoas
    E é tão bonito quando a gente entende
    Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
    E é tão bonito quando a gente sente
    (…)
    É tão bonito quando a gente pisa firme
    Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos
    É tão bonito quando a gente vai à vida
    Nos caminhos onde bate, bem mais forte o coração
    ?
    (Gonzaguinha)

    P.s. : Me emocionou muito as fotos em P&B, e se a intenção é “…desafia(r) o imaginário a compor as cores como
    se cada espectador fosse o pintor da própria vida a partir de uma tela de imagens cruas.”
    Há muito o que se pintar no Brasil dos excluídos, mas parabéns pelo bom uso que você faz do seu ‘pincel’ em tons
    de cinza.

    Sucesso Ripper!…e Alexandre valeu por me apresentar esse GRANDE fotografo.
    Não canso de vim aqui!

    🙂

  4. Apesar da boa intenção, achei que as perguntas estavam muito quadradonas. Tendo um pontecial a ser explorado como essa entrevista e o entrevistado, por que cair no mais certinho e previsível? Fica a cutucada pra pensar!
    Parabéns pelo blog!

  5. ” Pra mim fotografar é reconhecer e descobrir valores.”
    Para mim aqui está o ponto de minha admiração!
    Maravilha!
    Obrigado mais uma vez Belém!
    bj Kika

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